top of page

O dia em que ouvi o meu corpo...

  • 14 de jul.
  • 2 min de leitura
14 de julho de 2026


Hoje despedi-me.


Ainda me custa acreditar que estou a escrever esta frase. Durante muito tempo imaginei este momento que, agora que aconteceu, parece quase irreal.


Há poucos dias fui parar às urgências por causa de uma gastroenterite. Achei que ia ser apenas mais um problema físico, daqueles que passam com medicação e descanso. Nunca imaginei que aquele dia fosse mudar tanta coisa dentro de mim.


As dores eram insuportáveis, principalmente na cabeça. Nunca tinha sentido uma dor assim.


No caminho para o hospital, tudo começou a piorar. Lembro-me de gritar dentro do carro porque não conseguia suportar as dores. Sentia o meu corpo deixar de responder. Deixei de sentir os braços, perdi a sensibilidade em grande parte do corpo e comecei a perder a visão.


O medo tomou conta de mim.


Não conseguia perceber o que estava a acontecer. Pela primeira vez na vida, senti que tinha perdido completamente o controlo sobre o meu próprio corpo.


Quando cheguei ao hospital, já não conseguia andar. Tiveram de me transportar de maca e ajudar-me porque eu simplesmente não tinha forças para entrar. Durante aquele episódio tive movimentos semelhantes a consulsões, comecei a babar-me e tudo à minha volta parecia acontecer sem que eu conseguisse reagir.


Foi um dos momentos mais assustadores que alguma vez vivi.


No dia a seguir, já com alguma calma, comecei a pensar em tudo o que tinha acontecido.


A verdade é que o meu corpo já andava a dar sinais há muito tempo.


Há meses que ia trabalhar com ansiedade.


Há meses que passava o dia inteiro a olhar para o relógio, à espera que chegasse a hora de ir embora.


Nunca me senti verdadeiramente integrada naquele ambiente. Todos os dias fazia um esforço enorme para lá estar, convencendo-me de que era apenas uma fase e de que precisava de aguentar mais um pouco.


Mas, no fundo, eu já sabia.


Sabia que aquele lugar não era para mim.


As urgências não foram o motivo pelo qual me despedi.


Foram apenas o momento em que deixei de conseguir ignorar aquilo que já sentia há muito tempo.


Por isso, hoje, entregar a minha carta de despedimento não foi uma decisão difícil.


Foi uma decisão necessária.


Quando saí de lá, não senti arrependimento.


Senti alívio.


Senti paz.


Ainda não sei o que vem a seguir.


Tenho dúvidas.


Tenho receio do futuro.


Mas também tenho uma certeza que nunca tive antes.


Nenhum trabalho vale a nossa saúde.


Nenhum trabalho merece que deixemos de deixar de ser quem somos.


Hoje fechei uma porta.


Não porque desisti.


Mas porque percebi que continuar seria desistir de mim.


Até à próxima página.

Velaris 🦋

P.S. Espero nunca mais precisar que o meu corpo grite para eu perceber que chegou a hora de parar.
 
 
 

Comentários


VELARIS BORBOLETA_edited.png

Um lugar para respirar.

Reflexões para a mente.

Palavras para o coração.

NAVEGAÇÃO

VAMOS CONVERSAR

  • Sobre

VAMOS CONVERSAR

Envia-me uma mensagem

  • Início

  • Escritos

  • Contacto

© 2026 Velaris. Todos os direitos reservados.

´

,

Enquanto houver palavras, haverá esperança.

O Velaris partilha experiências e recursos, mas não substitui acompanhamento profissional.

bottom of page