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Carta #004

1 de ago.
2 min de leitura

O dia em que tudo deixou de parecer igual...


Há dias que não conseguimos recordar por inteiro, mas dos quais nunca esquecemos a sensação. O dia 06 de fevereiro é um desses dias para mim. Três dias antes tinha feito anos e, pelo menos aos meus olhos, estava tudo bem. Ou parecia estar. Hoje sei que já existiam discussões há muito tempo e que a minha mãe carregava coisas que eu não conseguia compreender, mas naquela altura eu tinha treze ou catorze anos e via apenas aquilo que me deixavam ver.


Quando a minha mãe me disse que íamos sair de casa, senti que tudo estava a acontecer de repente. Não me lembro de uma longa explicação nem de ter tido tempo para perceber o que aquilo significava. Lembro-me de chorar muito e de irmos viver para a casa da minha avó, onde ficamos durante cerca de seis meses. De um momento para o outro, a casa que eu conhecia deixou de ser a minha casa e a família que eu julgava estável passou a ter uma forma completamente diferente.


Apesar de estar assustada e triste, tentei não mostrar demasiado aquilo que sentia. Via a minha mãe sofrer e achei que precisava de a proteger, mesmo sem ninguém me ter pedido isso. Não queria que ela se sentisse ainda pior por me ver mal, por isso fui guardando lágrimas, as perguntas e a saudade. Convenci-me de que ser forte era não lhe dar mais uma preocupação. Na altura pareceu-me a coisa certa a fazer, mas hoje percebo que eu era apenas uma adolescente a tentar carregar emoções que não sabia sequer nomear.


A vida continuou como se tivesse de continuar. Continuei a ir à escola e fui-me habituando, aos poucos, àquela nova realidade. Por fora, tentava agir como se tudo estivesse normal. Por dentro, ainda estava a tentar compreender como é que a vida que conhecia tinha mudado tão depressa. Continuei também a falar com o meu pai, porque ainda não compreendia tudo o que tinha acontecido e porque, apesar dos erros dele, continuava a ser meu pai. Só por volta dos dezasseis anos comecei a juntar as peças, a perceber certos comportamentos e a olhar para a história de maneira diferente.


Foi também nessa altura que começaram a surgir, com mais força, sintomas que mais tarde reconheci como ansiedade. Não consigo dizer que tudo começou apenas por causa do divórcio, nem quero transformar um momento tão complexo numa explicação simples. Mas sei que, naquele período, aprendi a esconder o que sentia, a preocupar-me com o bem-estar dos outros antes do meu e a viver com a sensação de que tudo podia mudar sem aviso.


Durante muito tempo pensei que naquele dia apenas tinha mudado de casa. Hoje percebo que mudou muito mais do que isso. Mudou a forma como via a minha família, a segurança que sentia e, de algum modo, a forma como comecei a lidar com aquilo que me doía: em silêncio, para não pesar na vida de ninguém.


Respira. Não precisas de carregar o mundo hoje.

Até à próxima carta,

Velaris 🦋

PS: Há mudanças que acontecem num único dia, mas que levamos anos a compreender por inteiro.

 
 
 

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