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Carta #002

  • 13 de jul.
  • 2 min de leitura

Antes de tudo mudar...


Durante muito tempo pensei que a minha história começava no dia em que a ansiedade entrou na minha vida. Hoje percebo que não. A minha história começou muito antes disso, quando ainda era apenas uma criança e não fazia ideia de como a vida pode mudar sem nos pedir autorização.


Quando penso na minha infância, lembro-me de uma menina calma e feliz. Era filha única e, curiosamente, nunca senti falta de ter irmãos mais novos. Se pudesse escolher, talvez tivesse gostado de ter um irmão mais velho, alguém que me protegesse ou que simplesmente estivesse ali para partilhar a vida comigo.


Desde muito pequena que havia coisas que me faziam verdadeiramente feliz. Adorava animais, música, dança e tudo o que envolvesse criatividade. Aos três anos comecei a dançar danças de salão e, sem saber, encontrei um lugar onde podia simplesmente ser eu. Na altura era apenas uma atividade. Hoje percebo que a dança me ensinou muito mais do quepassos ou coreografias. Ensinou-me disciplina, dedicação e a importância de continuar, mesmo quando não apetece.


A minha família era pequena. Vivíamos a minha mãr, o meu pai, o meu avô e eu. Era o meu mundo e, naquela altura, acreditava que seria sempre assim.


Quando somos crianças vemos a vida de uma forma muito diferente. Não percebemos as preocupações dos adultos, nem aquilo que acontece quando fecham a porta do quarto para conversar. Vivemos com uma inocência que, hoje, até tenho saudades.


Às vezes penso que essa foi uma das fases mais bonitas da minha vida. Não porque tudo fosse perfeito, mas porque eu ainda acreditava que o mundo era simples. Ainda não conhecia a ansiedade. Ainda não sabia o peso que algumas experiências podem ter. Ainda não imaginava que, alguns anos mais tarde, iria olhar para trás e perceber que a minha história já estava a começar a escrever-se, mesmo quando eu pensava que era apenas uma menina a viver a sua infância.


Se pudesse dizer alguma coisa àquela versão de mim, provavelmente não lhe dizia nada. Deixava-a apenas continuar a brincar, a dançar e a acreditar que o mundo podia ser um lugar bonito por mais algum tempo.


Respira. Não precisas de carregar o mundo hoje.

Até à próxima carta,

Velaris 🦋


PS: Às vezes sinto saudades da menina que eu era. Não porque queira voltar atrás, mas porque ela ainda me lembra que é possível encontrar felicidade nas coisas mais simples.
 
 
 

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