Carta #003
- há 4 dias
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Há coisas que só percebemos quando crescemos...
Quando somos crianças, acreditamos que os adultos sabem sempre o que estão a fazer. Crescemos a pensar que os nossos pais têm a resposta para tudo e que a vida deles é tão simples como a nossa.
Hoje sorrio ao pensar nisso.
Naquela altura eu não fazia ideia de tudo o que acontecia à minha volta. Via apenas aquilo que uma criança consegue ver. Ia à escola, dançava, brincava e voltava para casa sem imaginar que, por trás das portas fechadas, havia problemas que ainda não era capaz de compreender.
O meu pai nunca foi uma pessoa má para mim. Tenho a necessidade de o dizer porque seria injusto contar esta história de outra forma. Nunca tive medo dele e nunca me faltou carinho enquanto filha. As memórias que guardo dele nessa altura não são de um pai distante. São apenas as memórias que uma criança consegue construir.
Mas uma criança também não percebe tudo.
Não percebe porque é que há discussões.
Não percebe porque é que o dinheiro desaparece.
Não percebe porque é que a mãe está cansada ou preocupada.
E muito menos percebe que há pessoas que vivem uma realidade completamente diferente daquela que mostram aos outros.
Só muitos anos mais tarde comecei a juntar as peças.
Percebi que havia comportamentos que eu sempre achei normais e que afinal não eram. Percebi que algumas atitudes tinham magoado muito mais a minha mãe do que eu alguma vez imaginei. E percebi também que a infância tem uma forma muito bonita de nos proteger.
Porque, às vezes, não ver toda a verdade é a única forma de uma criança conseguir continuar a ser criança.
Hoje olho para trás sem raiva.
Olho com a maturidade que não tinha naquela altura.
Há coisas que só fazem sentido quando crescemos.
E talvez seja essa uma das partes mais difíceis da vida: perceber que algumas memórias mudam quando conhecemos toda a história.
Respira. Não precisas de carregar o mundo hoje.
Até à próxima carta,
Velaris 🦋




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